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Entender a situação psicológica do humano contemporâneo envolve, antes de tudo, estar ciente de que na psicologia – hoje caracterizada como uma "ciência que trata dos processos mentais e do comportamento" – prevalece, basicamente, dois pontos de vista: a compreensão "geneticista" versus a visão "comportamentista" do indivíduo. O que corresponde, simplificadamente, a "natureza humana" versus o "condicionamento humano".
Os chamados "geneticistas", como o termo sugere, tendem a pensar que o comportamento humano tem origem na hereditariedade, nos genes e no instinto, na tal "natureza humana". Nos noticiários, são comuns as reportagens que detalham como algum estudo alega ter encontrado "o gene da obesidade", "o gene da aprendizagem" ou "o gene do câncer". Essa concepção de "predisposição genética" alimenta uma ideia de que somos "pré-programados" e que as doenças e o comportamento humano têm origem genética e de que são, portanto, inevitáveis ou imutáveis.
Por outro lado, os "comportamentalistas" veem o ser humano como um produto do condicionamento, com base na exposição da pessoa ao ambiente. Para eles, as ações humanas têm origem na vivência ou numa corrente desencadeada de ideias, causada por uma percepção previamente aprendida. A maneira como agimos (e reagimos) seria, portanto, originária do aprendizado e não da hereditariedade ou instinto, contradizendo os geneticistas. Somos, para os comportamentalistas, organismos sociais, não dependentes da biologia.
Qual ponto de vista é o certo? Nenhum dos dois. A questão é que é impossível compreender como a biologia funciona fora do contexto ambiental. É necessário compreender, antes de tudo, que "predisposição genética" não é o mesmo que "predeterminação". Se dentre 100 pessoas, nove têm o "gene do câncer", isso não determina que essas nove pessoas terão câncer. Os genes nos proporcionam, na verdade, formas diferentes de reagir ao ambiente e, portanto, a ocorrência ou não do câncer nessas nove pessoas dependerá do ambiente no qual elas estão inseridas. Outro exemplo: as pessoas não se tornam alcoólatras porque têm uma predisposição genética, pois nem todo alcoólatra tem o "gene do alcoolismo" (uma pessoa pode desenvolver o alcoolismo simplesmente devido à influência dos pais ou amigos) e nem todo alcoólatra que tem o "gene do alcoolismo" manifestará esse vício.
De fato, existe influência dos genes na maneira de reagirmos ao contexto ambiental, não só no campo das doenças, mas também em termos de ações. Diversos estudos sobre o comportamento humano – violência, suicídio etc – comprovaram essa afirmação. Somos organismos em constante transformação, vulneráveis às influências, ao condicionamento e mudanças geradas pelos nossos genes em conjunto com o ambiente. Essa capacidade de transformação é em grande medida influenciada pelas condições sociais e ideológicas que temos sido condicionados a pensar serem inalteráveis: somos condicionados a crer que "o ser humano é naturalmente corrupto", que "essa doença não tem cura" e que "o mundo sempre funcionou dessa maneira e não vai mudar agora". São justamente esses tipos de falsas "opiniões" enraizadas em nossa espécie que fazem com que a paralisia, a passividade, a indiferença e uma sensação de impotência tomem conta de nossa vida. "Mudar as regras do jogo" não é do interesse daqueles poucos que estão ganhando.
As teorias geneticista e comportamentalista são, portanto, explicações diferentes para nossa condição atual, mas que não ameaçam uma mudança em tal condição. Isto é, simplesmente contribuem para que o mundo continue funcionando da maneira como funciona "desde sempre": privilegiando poucos e explorando muitos. Ambas as teorias ignoram o caráter emergente, dinâmico e simbiótico da relação entre humanidade e seu ambiente - o universo (ou natureza).
Para o Movimento Zeitgeist, é primordial entender que o universo é uma enorme rede de relações na qual humanos e natureza coexistem de maneira interdependente, complementar e inseparável. Um mundo que tem a flexibilidade e a transformação como premissas e que promove a educação crítica e a criatividade das pessoas é a proposta sustentada pelo movimento. Uma organização social que se mostra positivamente ciente da enorme influência exercida pelo meio em que vivemos no nosso pensamento, ações, crenças e tudo mais. Assim, a intenção do movimento é superar a maneira defasada, tradicionalista e autodestrutiva que vivemos e divulgar esse novo jeito de ser, essa nova organização: a economia baseada em recursos, cujo propósito é o constante desenvolvimento intelectual, emocional, espiritual e integral do indivíduo e sociedade em sintonia com as leis da natureza.
Nas palavras do teólogo Leonardo Boff: "Tudo se mantém religado num equilíbrio dinâmico, aberto, passando pelo caos que é sempre generativo, pois propicia um novo equilíbrio mais alto e complexo, desembocando numa ordem, rica de novas potencialidades".
Fontes:
1. THE ZEITGEIST MOVEMENT. Understandings.
2. LOUIS MENAND. Citação do escritor norte-americano Louis Menand em Zeitgeist: Moving Forward (2011).
3. GABOR MATÉ. Depoimento do médico húngaro-canadense Gabor Maté em Zeitgeist: Moving Forward (2011).
4. LEONARDO BOFF. "As quatro ecologias de Leonardo Boff", em http://www.leonardoboff.com/site/eco/eco.htm. 2008.
O estudo da sociedade diz respeito à interação humana. Levando em conta a variedade de maneiras e contextos em que as pessoas vivem e se relacionam umas com as outras e com o mundo à sua volta, temos, portanto, várias maneiras de estudar – e de criticar – o modo como vivemos em sociedade hoje. É possível examinar uma sociedade sob o aspecto de suas estruturas sociais. Isto é, de suas relações aceitas e praticadas – tidas como "padrão" e, por conseguinte, obrigatórias – que unificam as pessoas e os diversos grupos que a constituem. As instituições religiosas são um exemplo de estrutura social, pois orientam seus seguidores ética e moralmente de acordo com o que cada instituição acredita ser o correto. Elas estabelecem um conjunto de valores universais (como a honestidade, a bondade etc.) que devem reger a conduta dos homens. Outro tipo de estrutura social está na forma de corporações e governos, que através de um intrincado jogo de interesses, influenciam direta e indiretamente a vida de todos.
As estruturas sociais exercem sua influência em graus diferentes: algumas são mais fortes que outras; todas, entretanto, se complementam, se confirmam e afetam a consciência coletiva. Um ponto importante dentro dessa análise é a suposta "natureza humana" e suas implicações no senso coletivo. Por exemplo, somos ensinados – seja pela igreja, pelos pais, escola etc. – que a competição social é uma tendência saudável e inerente à humanidade e que a estratificação de classes é um reflexo dessa condição inevitável. Mas isso é um equívoco.
O argumento mais comum é que o humano é competitivo devido à sua condição de animal. Comparamo-nos, por exemplo, com alcatéias de leões, que vivem em ambientes de escassez, nos quais precisam se organizar hierarquicamente, caçar, lutar uns contra os outros, competir por comida e por parceiros sexuais para a sobrevivência de curto prazo. Se por um lado essa comparação é válida, pois, de modo similar essa é a maneira como (sobre)vivemos hoje, por outro ela é inteiramente equivocada. O principal argumento é que somos capazes de desenvolver tecnologias (como ferramentas, métodos, materiais, estruturas, teorias, conhecimento e muito mais) que nos libertam de determinada tarefa ou problema – no caso, o problema da escassez.
A economia monetária é fundamentada numa situação de escassez que hoje se encontra superada pelo desenvolvimento tecnológico. Isto é, ela estabelece acesso restrito à alimentação, atendimento médico, moradia e todos os demais recursos através da racionalização financeira. Contudo, com o atual potencial técnico para a abundância, a atual escassez é nada além de uma versão propositalmente artificial, planejada, que serve apenas para manter produtos e serviços acessíveis aos poucos que podem pagar por acesso, resumidamente falando. Sendo assim, é do interesse deste modelo econômico manter a escassez, pois é uma possível fonte de rendimento monetário, pois quanto menos de tal recurso existir, mais caro ele tende ser. E a perpetuação de valores de competição e indiferença social se propagam indefinidamente. A busca individualista da autopreservação é uma conseqüência dessa cultura da escassez artificial. Na ânsia de "garantir o nosso", invariavelmente temos que enganar, roubar e até mesmo matar, seja direta ou indiretamente.
Fontes:
1. ENGELS, F. & MARX, K. A base real da ideologia. In: ________. A ideologia alemã. 1846. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 55-86.
2. FÁTIMA MILNITZKY. Subjetividades e laços na sociedade de consumo. 2003.
3. GEORG SIMMEL. As grandes cidades e a vida do espírito. 1903.
4. FERNANDO BRAGA DA COSTA. Homens Invisíveis. 2004.
5. THE ZEITGEIST MOVEMENT. Understandings.
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